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BARRA DE SÃO JOÃO AMANHECENDO....

BARRA DE SÃO JOÃO AMANHECENDO....

Por gosto pessoal, já estive em lugares espetaculares. Viajei para Amsterdan, Florença, Londres, Salvador, Paris,Nice, Rio, Roma, Nova York, Miami, e outras tantas cidades apaixonantes. Vi os monumentos mais bonitos, percorri as estradas mais fantásticas, admirei as paisagens mais inspiradoras. Bebi nos cafés mais agradáveis, comi em restaurantes inesquecíveis.
Gostaria de falar, agora, sobre um lugar que, durante muito tempo, foi o mais bonito do mundo - para mim. Uma faixa de areia que se estendia no litoral do estado do Rio de Janeiro - areia fofa, amarronzada, dura. Famosa Barra de São João, pertence a Casimiro de Abreu, a alguns quilômetros da capital carioca.
O Praião nunca esteve na moda como Guarujá, Maresias, Búzios. Talvez tenha sido um pouco mais bacana nos anos 60, quando pessoas anônimas possuíam casas por lá sem ao menos serem percebidas. A vocação popular manifestou-se na década de 70, quando meu avô começou a construção, durante a copa do mundo de 1970, e depois de uns 40 dias estava pronta a casa que durante alguns muitos anos seria a felicidade de toda a família.
É uma praia próxima a Búzios e Cabo Frio. O importante é que tinha tudo que fazia dela uma boa praia: Minha família toda reunida, meu pai minha mãe, Cláudia, Breno e tios, tias e primos que sempre viajávamos juntos! O pai sempre estava com a gente fazendo castelinhos na areia, minha avó me contava isso muito; e, no auge das temporadas, todos os amigos de todas as ruas estavam por lá. Sem falar na casa abandonada que ficava ao lado, e tantas vezes brincávamos por lá eu, Luciana, Cláudia e Marlus. No entanto era uma praia sem calçadão.
Calçadão. E daí? Andávamos queimando os pés ou furando com espinhos até chegar 'a areia mas o que, para você, é uma viagem especial? Aquela que traz os grandes momentos, não é? Pouco importa, às vezes, se aquela onda não quebrou no Havaí, se aquele coquetel não foi preparado em Miami, se aquela peça saiu de cartaz na Broadway.
Lembranças? Guardo muitas fotos da "Barra", mas posso contar-lhes algumas histórias. Na "Barra" apaixonei-me pela primeira vez, e até lembro que foi atrás da casa de Casimiro de Abreu, hoje museu histórico, que sempre quando levávamos visitas, era passeio obrigatório. O nome não importa , acho que não lembro mesmo. Ali saía para rua a noite, tentando impressionar a turma, uns cariocas que conhecemos por lá e tornávamos amigos durante aquela temporada e as seguintes também. Ali ganhei uma bicicleta num palito premiado de sorvete. Ali minha mãe, que odiava cozinhar quando estava viajando, preparava um almoço rápido para todos em casa, qualquer prato era o mais sem graça do hemisfério sul - devorado sofregamente, em segundos. Ali comemorava meu aniversário com bolo de caixinha.
No boliche e sorveteria “Sem Nome”, tomávamos o melhor sorvete do universo, e esperávamos o dia inteiro só para chegar a hora de ir pra lá e encontrar um tanto de gente. Minha irmã e minha prima sempre conheciam algum carinha que queriam ficar ou melhor beijar a boca, elas sempre chegavam em casa sonhando com aqueles momentos. Na casa modernista do Fabinho, com sua varanda e seu balanço de vime, ficávamos em grupo cantando até o amanhecer as músicas de Chico Buarque, que eu sempre pedia.

Na Barra de São João, eu tinha meu pai.

Sem saber, o velho, que adorava viajar, me ensinou a gostar de tudo o que está implícito nesse ato: o prazer de sair da rotina, a estrada, a chegada e a partida, a “arrumação”para a viagem que outrora era de Kombi, Fuscão, e até a Brasília que foi da Tia Lourdes, algumas vezes fomos de ônibus, mas era sempre um sonho saber que íamos a Barra.
Como o pai trabalhava duro no “Bull Dog” e depois na Câmara, a vila (Barra) era o lugar onde sabíamos, eu minha irmãzinha e meu irmão, que o teríamos só para nós pela eternidade de uns 15 a 20 dias. Em seu Fuscão azul claro, que foi da Tia Lourdes também, ele nos guiava pela progressista Cidade e arredores, com suas praias paradizíacas e de águas rasas, mamãe arrumava o lanche para passarmos o dia fora de casa.
A Barra de São João , como a conheci, não existe mais. A casa que depois passou a ser da Tia Beth, foi toda reformada. O “Sem Nome” perdeu seu encanto, a igrejinha sempre cheia de visitantes. As ruas de areia foram asfaltadas. O praião agora tem um calçadão. Mas ela não está pior do que era. Não é esse o ponto. Aqueles janeiros me ensinaram a entender o que é imprescindível numa viagem: tirar de cada lugar uma sensação especial, algo que se leve para sempre, que transcenda os álbuns de fotografia. Há um belo filme argentino, chamado Kamchatka, que esteve em cartaz nos cinemas de São Paulo e do Rio recentemente. Conta a história de Harry, um menino de 10 anos forçado a fugir com os pais para uma chácara nas imediações de Buenos Aires no tempo da ditadura. Lá ele passa o tempo jogando T.E.G., o nosso War. Kamchatka, vemos na fita, é o nome de um território perto da Sibéria de onde seu pai parte, numa noite de disputa memorável, para virar o jogo, quando estava cercado pelos exércitos do filho. Na tarde em que o pai vai embora para nunca mais voltar, Harry recebe de suas mãos o jogo, como um presente. "Kamchtka", diz o garoto, "é o lugar para resistir quando tudo parece perdido."
A Barra de São João é a Kamchatka da minha memória.
Quando meu pai partiu, deixou para mim lembranças de todo o carinho que ele sempre nos proporcionou, mesmo com aquele jeito meio fechado de ser, mas ensinou que mesmo o mundo perdendo a ética, a única coisa que fazia questão, era que fóssemos pessoas íntegras; obrigado a meu PAI.
Marcelo R. Bastos

Quarta-feira , 18 de Abril de 2007 Publicado por bastos

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Lindo o texto!

18/04/2007 10:58 Ewerton

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